Marinês

(Rodrigo Lorenzetti / Luiz Venâncio)

Vinte e três verões num suéter,
ela acorda às seis,
bate o ponto às sete em ponto,
o computador liga,
diz “oi” pro seu chefe
contador,
que então se derrete todo
de amor,
mas ela não perde os modos
de encantadora
flor da Zona Leste,
tão cheia de valor,
do produto o fator
em que ninguém vai mexer.

Todo mês
do salário vai metade
pro inglês
e pra sua faculdade
tão sonhada de
contabilidade
que ela fez
de sonho realidade.
Mas talvez
só a força de vontade
não tenha levado à felicidade
porque a luz e o calor
dependem do amor
e isso ela não entendeu.

Mas no metrô
alguém chamou
e ela sorriu,

gelou…

Quantas leis,
probabilidades, planos
ela fez
pros futuros
meses, anos,
vejam só vocês
mas que ledo engano:
naquela vez
só o doce
olhar de um mano
já desfez
tudo de cartesiano
que havia no coração
suburbano de Marinês.